Sábado, 13 de Fevereiro de 2010
PS de Coimbra não recuperou da morte de Fausto

ANTÓNIO ALMEIDA SANTOS

Foto Diário As Beiras

 

 

P - Coimbra é a terceira cidade do país?

R - Como matriz cultural, é capaz de ser. Mas, noutros aspectos, Coimbra tem-se apagado perante Aveiro e algumas cidades com ensino superior.


P - Que razões encontra para essa situação?

R - Por exemplo, Coimbra era conhecida pela sua indústria têxtil. Teve outras indústrias, mas acabou por perder quase tudo. A falta de afirmação do ponto de vista económico leva a que, por acréscimo, outras situações vão em conjunto.


P - A falta de importância acontece também no domínio político?

R - Sabe que, antigamente, o recrutamento de políticos era feito à base de professores universitários de Coimbra. Isso acontecia porque Coimbra tinha a única universidade do país. Hoje em dia, há universidades espalhadas por quase todo o país. Ter uma universidade deixou de ser um privilégio raro de Coimbra usufruiu durante séculos.


P - Viveu, então, à sombra da torre ...

R - É verdade. A Universidade de Coimbra ainda tem um prestígio em termos de contactos internacionais que mais nenhuma instituição tem. E, ultimamente, tem tentado reforçar este prestígio. Até em consequência das conclusões de Bolonha, onde Coimbra vai à frente em algumas áreas. A investigação científica é um bom exemplo. Mas noutras não. Uma coisa não perdeu: a sua mística.


P - Isso é bom ou mau para a cidade?

R - Coimbra viveu sempre muito centrada na sua universidade. Parte da população ou era constituída por estudantes ou por pessoas que viviam em função dos estudantes. Há uma centralidade que não existe em mais nenhuma cidade com ensino superior do país. Como tal, penso que Coimbra não tinha condições para ter outra fonte de desenvolvimento que não fosse esta. Ou seja, ao provincianismo, a cidade respondeu sempre com a sua universidade. Posso mesmo dizer que a universidade emancipou Coimbra do seu provincianismo.


P - Que opinião tem sobre o actual fado de Coimbra?

R - Acho que as guitarras mudaram muito. E para melhor. Desde logo porque, no meu tempo, nós não sabía- mos música. Já os cantores é que não. Nem sempre nascem vozes fulgurantes como as dos anos 50 e 60. Não nos podemos esquecer que estamos actualmente a falar de vozes de microfone.


P - Também ele tem vindo a perder importância?

R - Perdeu importância relativa. Muito por culpa da evolução do fado de Lisboa. Neste momento, o fado de Lisboa tem excelentes executantes. Quer na guitarra, quer nas vozes.


P - Continua a acompanhar os jogos da sua Académica?

R - Todos da mesma forma: apaixonadamente. E posso-lhe dizer que ainda vibro com as suas vitórias.


P - Como antigo dirigente da Briosa, que comentário lhe merece o processo judicial do presidente?

R - Todos os cidadãos têm o direito à presunção de inocência. Para além disso, a minha convicção é que José Eduardo Simões é um homem sério. E um bom presidente.

P - Trabalhar com ele foi difícil?

R - Primeiro que tudo, José Eduardo Simões é um homem competente e capaz. Às vezes, um bocado duro no contacto com as pessoas. Isso criou-lhe alguma antipatia no exterior. Mas volto a repetir: é um homem competente. A prova disso é que lá tem mantido o clube na Liga e com uma boa gestão financeira. O que, para mim, também é importante. Vamos ver o que dá o julgamento.


P - Acha que os tempos actuais são de macrocefalia de serviços em Lisboa o que pode levar à desertificação do interior?

R - Julgo que não tem havido um aumento da desertificação do interior. Sinónimo disso mesmo é o trabalho desenvolvido pelo poder local nessas localidades. Existem mesmo cidades e vilas onde se vive melhor do que em Lisboa.

P - Que visão tem hoje da cidade de Coimbra?

R - Não chego a ter bem o pulso da cidade, porque não vivo a Coimbra dos cafés e dos convívios. Mas acho que Coimbra continua bonita. O pior tem sido mesmo a menor progressão em termos populacionais e a falta de comércio e indústria. Tenho pena que não tenha o êxito que tem, por exemplo, Aveiro. Considero mesmo que o tempo actual não é favorável a Coimbra.


P - De que forma isso pode ser invertido?

R - A universidade tem aqui um papel fundamental. É a ela que cabe o papel principal de tornar a cidade universal e não provincializá-la. Se isso não acontecer, tenho pena do que vou dizer: não há nada que a salve.


P - Acha que o PS Coimbra já recuperou da perda de Fausto Correia?

R - É uma perda irreparável para Coimbra e para o país. Quando faleceu, o PS da cidade perdeu a oportunidade de triunfar ao nível autárquico. A prova de que não conseguiu recuperar é que, nas últimas autárquicas, o PS perdeu as eleições.


P - Que balanço faz sobre a actual liderança autárquica da cidade?

R - Acho que o dr. Carlos Encarnação tem qualidades humanas excelentes. Politicamente, tem o defeito de não ser do PS. Um defeito que, com certeza, nunca mais será corrigido.


P - Que leitura faz da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República?

R - É uma represe. Manuel Alegre já se tinha candidatado. Nessa altura, ele apresentou--se contra uma candidatura protagonizada por Mário Soares. Agora, não. Apresenta-se de pleno direito e com plena liberdade de o fazer.


P - Acha, então, que o PS o deve apoiar?

R - Toda a gente tem a liberdade de o fazer, menos eu, porque sou o presidente do partido. Se o fizesse, quase que estava a dar uma indicação do que eu entendo que deve fazer o partido. Só o farei no órgão competente do partido.


P - A sua candidatura não é uma maneira de forçar o apoio do partido?

R - Eu não sei se forçar é a palavra mais correcta. Mas a ideia é essa. O que é certo é que a questão está colocada e o PS, mais tarde ou mais cedo, terá de se pronunciar sobre a questão. O que acontecerá depois da questão do Orçamento de Estado estar arrumada.


P - Já não acredita na queda do Governo?

R - Deitar abaixo o Governo seria uma irresponsabilidade. Até porque, actualmente, o poder político não seduz.


P - É da opinião que está em curso uma cabala contra o primeiro-ministro José Sócrates?

R - O nosso secretário-geral é um excelente político e um bom primeiro-ministro. Até pela capacidade que tem de se opor às críticas que lhe são dirigidas. Algumas delas concretas e de extrema gravidade. Mas alguém provou alguma coisa contra ele? Nada.


P - Que comentário lhe merece a divulgação das escutas em que José Sócrates está envolvido?

R - Há escutas e escutas. Aquelas que são determinadas pelas instâncias judiciais, nada tenho sobre isso. O aproveitamento, fora desse sistema, é que acho extremamente condenável. Embora me custe dizê-lo, é um regresso ao tempo da PIDE.


P - Porque diz isso?

R - Porque exploraram uma conversa que o primeiro-ministro estava a ter com um grupo de amigos numa mesa do restaurante. Ou seja, num espaço público. Qual a necessidade dessa conversa chegar aos jornais? Repito o que disse: parece que estamos a voltar aos tempos de informadores da PIDE. Há o direito de explorar isto contra um cidadão? Isto é democrático? Perdemos o direito à nossa intimidade? Acho isto absolutamente incrível. Foi assim no passado que muitas democracias degeneraram em ditaduras

 

In: Jornal “Diário As Beiras” - 13-02-2010

António Alves

 



publicado por José Soares às 23:21
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