Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
Concelhia do PS/Coimbra: Três candidatos à travessia do deserto. E quem mais?

A Concelhia de Coimbra do Partido Socialista vai a votos, em Maio próximo, para eleger o seu próximo presidente. Três candidatos já se perfilaram: Paulo Valério, Carlos Cidade e Luís Santarino. Esta variedade é bem-vinda, depois de uma longa carestia de genuínas alternativas de liderança, e os militantes do partido da rosa podem agora escolher entre três programas aparentemente bem distintos, três figuras bem apartadas, três currículos diferentes.

Será suficiente esta oferta? Esgotará ela a procura de opções por parte dos eleitores socialistas, ou faltará antes um quarto candidato que complete o panorama electivo?

Os militantes, como qualquer eleitor em qualquer sufrágio, têm de tomar uma decisão genérica que antecede todos os demais detalhes programáticos: ou optam por defender o “statu quo” e assumem uma aposta conservadora na continuidade do “regime”, ou optam por uma linha progressista que aponte claramente para a mudança. Direita ou Esquerda, conservadorismo ou progressismo, neoliberalismo ou socialismo, continuidade ou renovação, não passam de diferentes designações para a mesma disjuntiva, para o mesmo par de opções que devem ser disponibilizadas ao militante. Manter o rumo ou mudar de rumo, essa é a questão.

Nos tempos difíceis que vivemos, depois do falhanço estrepitoso dessa “terceira via” que foi o neoliberalismo travestido de socialismo, não há lugar para mais programas políticos ambíguos, de “renovação na continuidade”. Tais fórmulas contraditórias servem apenas para os candidatos captarem votos indistintamente à Esquerda e à Direita, piscando o olho a renovadores e conservadores, para no final servirem apenas os interesses já estabelecidos. A  História mostrou-nos como tais manobras retóricas são típicas de quem pensa, como Juscelino Kubitschek, ser a política “um violino que se pega com a esquerda e se toca com a direita”.

Ora, perante os três candidatos à liderança concelhia de Coimbra dos socialistas, que discurso sustentam os pretendentes? Afirmam-se renovadores ou conservadores? Não clarificam. São “renovadores na continuidade”, como é evidente. Quanto mais explicitamente se lhes coloca a questão, mais ambiguamente respondem; e o seu nível de ambiguidade é tão mais sofisticado quanto maior é a sua preparação literária. Os diferentes discursos eleitorais são obras-primas ora de obnubilação e prolixidade, ora de elipse e abstracção. E assim ambicionam abraçar todos os militantes e convencê-los que ali, nas entrelinhas, está subentendido aquilo que todo e cada um quer ouvir. Sendo assim, se as palavras destes candidatos não nos esclarecem, olhemos pois para os seus percursos políticos em busca de leituras mais clarividentes.

O decano dos três candidatos é, sem dúvida, Luís Santarino, militante socialista há 36 anos e “compagnon de route” de todos os dirigentes partidários concelhios das últimas décadas. O seu nome já figura inegavelmente na História da Concelhia ao lado do dos líderes que orientaram localmente o PS e o trouxeram à situação que vivemos. Santarino pode dizer, com legitimidade, que o PS de Coimbra é, em parte, um legado seu. Vários líderes de memória recente decerto lhe devem gratidão pelo denodado apoio, embora, decerto também, se sintam desconcertados com o seu novo discurso iconoclasta.

Em certa medida, também Carlos Cidade pode orgulhar-se de um legado e trajectos semelhantes aos de Santarino. Tão semelhantes, aliás, que escapa à maioria dos militantes o motivo pelo qual a sua candidatura não se encontra irmanada àquela outra. Sem os esforços tantas vezes conjugados destes dois militantes, o Partido Socialista de Coimbra não teria tido os resultados que teve nos últimos 10 anos e não representaria o que representa no panorama político nacional.

O elemento júnior desta tríade de candidatos é Paulo Valério, que traz no seu currículo vários anos como dirigente da Juventude Socialista seguidos de um quadriénio como adjunto de Henrique Fernandes, governador civil de Coimbra e presidente cessante da Comissão Concelhia do PS. Diz-se descontente com o desempenho do partido, tendo constatado publicamente que “Coimbra […] observa o PS, hoje em dia, com um misto de desilusão e de ansiedade” (Campeão das Províncias, 17/12/2009). Sente que o partido está “sequestrado, há demasiado tempo, pelo passado”, esse mesmo passado que protagonizou. Protagonizou-o com diplomacia e eloquência, é certo; mas sobejou-lhe em discursos o que lhe faltou em consequências, sobrou-lhe em declarações de anseios vagos o que lhe faltou em propostas políticas concretas e comprometedoras. E agora, de supetão, diz ser importante “ajustar as contas com o futuro”. Teve quatro anos para fazê-lo. Fá-lo-á desta vez?

Perante este panorama, faz falta um quarto candidato?

Todos os candidatos têm um currículo conservador e conformista, por mais que se afirmem renovadores para seduzir os descontentes. É difícil acreditar na sua sinceridade, é difícil não lhes perguntar por que motivo não foram “renovadores” quando ocuparam os cargos que ocuparam até há pouco tempo. É preciso, por isso, um quarto candidato sinceramente renovador, cujo espírito de mudança não tenha nascido por motivos tácticos somente para o período eleitoral, mas resulte de uma longa maturação; um novo candidato que não ofereça projectos renovadores concatenados à pressa, para os descartar também apressadamente assim que o acto eleitoral for consumado.

Nenhum dos três candidatos tem um percurso político e profissional que nos demonstre quer o desejo de renovação, quer a competência técnica para dominar os temas necessários a uma acção política renovadora no âmbito das autarquias. Um candidato a uma Concelhia tem de estar habilitado a sobraçar pastas de Ambiente, Urbanismo, Educação, Economia, Cultura; e, uma vez que não é humanamente possível nem politicamente desejável que as domine por completo, deve saber rodear-se dos mais competentes conselheiros nesses temas, e ter o hábito de dialogar assiduamente com a sociedade civil activa nesses tópicos. Santarino, Cidade e Valério são, apesar de todo o seu espírito dialogante, cidadãos cuja intervenção no espaço público é quase exclusivamente política, nunca tendo mostrado especial interesse pela sociedade civil, pelas associações não-governamentais de Ambiente e Cultura, pelos movimentos cívicos de intervenção, nos quais não consta terem tido militância assídua. É necessário, em alternativa, um candidato cujo currículo profissional e cívico evidencie a experiência que aparentemente falta aos três contendores já no terreno.

A Concelhia socialista de Coimbra necessita, em suma, de renovação sincera, protagonizada por um quarto candidato, cujo percurso profissional, cívico e ideológico ateste o seu espírito de mudança. E que esta mudança seja assumidamente à Esquerda, como compete a um partido que se diz socialista. Nenhum dos três candidatos presentes oferece tais condições. Esperemos que haja condições para tal candidatura se concretizar; os três candidatos precedentes já cooptaram o imenso número de militantes que se havia resignado à falta de escolhas; o tempo joga contra a entrada de novas propostas eleitorais.

Num contexto político, diz-se que um político fez a sua “travessia do deserto”, tal como Saulo a caminho de Damasco, quando atravessou um demorado e introspectivo período de afastamento, donde resultou um realinhamento doutrinal e partidário. Faz sentido: demora algum tempo esse luto pelas ideias que morreram, pelas alianças que se romperam, seguido da gestação de uma nova doutrina e novas amizades. Ao escutar os três candidatos que se apresentam às eleições concelhias defenderem a renovação e a mudança, não podemos deixar de nos interrogar: com que velocidade percorreram a sua estrada para Damasco? Chegaram sequer a calcorreá-la? O seu sentimento de mudança é sincero e ponderado? Afigura-se-nos que não. Pior: afigura-se-nos que se houvesse tanto desejo de mudança, essa via estaria congestionada há vários anos por estes candidatos. O tempo dirá se estes Saulos não serão, ao final, apenas filhos pródigos que a casa hão-de tornar. Oxalá que não.

Um grupo de militantes do PS do concelho de Coimbra

In: Jornal Digital “CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS” - 24-02-2010



publicado por José Soares às 12:13
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